Com a proposta de se distanciar da história clássica de Cinderela, imortalizada principalmente pelas versões da Walt Disney, “Cinderela” (2021) é um longa para a família e, com base na trilha sonora, projetado para atrair o público jovem.
Aqui, Ella (Camila Cabello) tem o sonho de abrir seu próprio negócio e ser um novo nome da confecção de vestidos no reino, mas tem em seu caminho uma madrasta (Idina Menzel) e irmãs que não estão dispostas a abrir mão de tê-la como empregada. Já o príncipe Robert (Nicholas Galitzine) está completamente alheio da ideia de seus pais (Minnie Driver, Pierce Brosnan) de que se case e torne-se rei, vendo na irmã Gwen (Tallulah Greive) uma líder bem mais capacitada.
No geral, o filme corresponde às expectativas de ser um filme atrativo para aqueles que podem rejeitar os contos de fadas nos moldes comuns, além de alegre e otimista que pode satisfazer todas as faixas etárias. Porém, muitas vezes opta por caminhos e diálogos muito rasos em prol de conseguir arrancar risadas em qualquer oportunidade, o que nem sempre ocorre. Também, a introdução de elementos da cultura pop contemporâneos, principalmente nas interações entre Ella e sua fada madrinha (que ganha vida pelo ótimo e carismático Billy Porter), parecem deixar as passagens datadas.

Apesar da escolha corajosa de direcionar o longa para outro caminho e dar a ele uma roupagem mais atual, a direção e roteiro de Kay Cannon (“Pitch Perfect“) encontram problemas em estruturar esse novo estilo em uma trama musical. Mesmo que traga uma Cinderela “mais rebelde”, o que se observa é um roteiro pouco inspirado que tenta encontrar nas músicas conhecidas uma saída. “Cinderela” da Amazon Prime Video é um filme musical jukebox, tal qual “Mamma Mia” (2008), mas que na maior parte do tempo não consegue empregar nas performances o carisma necessário para reinterpretar canções tão populares que vão de Queen e Ed Sheeran para Salt-N-Peppa e Earth, Wind & Fire.
Assim como ocorre com outros filmes musicais, os responsáveis parecem se preocupar mais com a quantidade de números para ser rotulado um musical do que para mostrar ao público que eles são parte integrante do roteiro. As músicas não deveriam significar uma pausa na narrativa, mas sim um outro jeito de mover a história para frente. A trama central e os números musicais não devem parecer um conflito de um filme que não sabe como fazê-los existir de modo coeso, o que infelizmente acontece neste caso.
Os grandes destaques musicais do filme são as surpreendentemente boas e energéticas coreografias e vocais do elenco de apoio – em números com o de abertura, “Whatta Man”, e sua presença que engrandece a versão do príncipe de “Somebody to Love”. Além deles, Idina Menzel ganha grande destaque por sua versão de “Material Girl” de Madonna, sendo uma das melhores performances vocais do longa. A estreante Cabello traz uma interpretação muito assertiva de Cinderela, ainda que, talvez por sua inexperiência com a técnica de lipsync, a performance das músicas não pareçam tão natural.
Quanto a outras performances, o núcleo que envolve o castelo se mostra mais interessante do que a dinâmica de Cinderela com a família, que acontece na mesma configuração do clássico já vista anteriormente. Minnie Driver e Pierce Brosnan trazem uma rainha e um rei preocupados com seus filhos e que tentam com isso tirar aprendizados sobre seu próprio casamento.

O filme estranhamente traz os ratinhos que se transformam em humanos como um dos elementos cômicos (digo estranhamente já que o longa tenta ao máximo se desprender das sombras da Disney, mas voluntariamente se beneficia de uma). Aqui temos James Corden e os comediantes britânicos Romesh Ranganathan e James Acaster como amigos da protagonista. Enquanto estes fazem um trabalho correto, Corden deixa a impressão de que se sai melhor quando não tenta ser uma caricatura de si mesmo, como fez em “Into the Woods”, apesar desta ser uma péssima adaptação. Todos já conhecem seu tipo de humor, não parece mais haver a necessidade de ser reafirmado em todos os projetos do qual faz parte.
“Cinderela” é um longa musicado mediano, que joga limpo e não tenta ser maior do que aquilo que se esperava e certamente proporcionará sing-alongs com toda a família. Porém ao ter dificuldade de entender a si próprio como um musical, não obtém sucesso ao combinar passagens musicais que destoam da narrativa e momentos cômicos que parecem perder a força à medida que o tempo passa. O que é uma pena já que isso acaba ofuscando performances sólidas de grande parte do elenco.
“Cinderela” (2021) está disponível na Prime Video.

