Critica: A Odisseia
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Critica: A Odisseia

Christopher Nolan transforma a viagem de Odisseu em uma história sobre guerra, culpa e o preço de voltar para casa

Danilo Miranda

Por Danilo Miranda em 16 de julho 2026

Atualizado 2 horas atrás

Poucas histórias carregam o peso cultural de A Odisseia. O poema atribuído a Homero atravessou séculos e ajudou a estabelecer estruturas narrativas ainda usadas pelo cinema. Ao assumir esse material, Christopher Nolan reorganiza o mito a partir de temas recorrentes em sua filmografia, como memória, tempo, culpa e homens obrigados a conviver com as consequências de suas decisões.

Estrelado por Matt Damon, o filme acompanha Odisseu depois da Guerra de Troia, quando o rei de Ítaca inicia uma perigosa tentativa de retornar para casa. Enquanto enfrenta tempestades, criaturas e territórios desconhecidos, Penélope, vivida por Anne Hathaway, tenta preservar o reino. Ao mesmo tempo, Telêmaco, interpretado por Tom Holland, cresce sob o peso de um pai transformado em lenda.

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Nolan entrega uma aventura monumental, mas também uma reflexão sobre homens que vencem guerras e descobrem tarde demais que a vitória não encerra seus conflitos. Ao aproximar Homero de suas próprias obsessões, o diretor encontra tanto a força do filme quanto suas limitações.

ATENÇÃO: a partir deste ponto, o texto contém spoilers de A Odisseia.

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Nolan transforma o mito em uma história sobre culpa

A principal mudança está na forma como Odisseu é apresentado. Nolan transforma o Cavalo de Troia na origem de uma culpa que acompanha o personagem durante toda a viagem. O plano que encerra a guerra também destrói uma cidade, tornando o herói responsável por uma vitória construída sobre mortes, traições e sacrifícios.

Robert Pattinson caracterizado como Antínoo no filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan
Robert Pattinson interpreta Antínoo em A Odisseia, novo épico de Christopher Nolan (foto: Reprodução/Universal Pictures)

Assim como Oppenheimer, ele cria algo capaz de alterar a história, mas não controla o que acontece depois. A viagem deixa de ser apenas uma sucessão de provações e passa a representar a dificuldade de retornar à vida anterior. Odisseu quer voltar para Ítaca, mas já não é o mesmo homem que partiu.

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Um espetáculo pensado para a maior tela possível

A fotografia de Hoyte van Hoytema transforma o mar em uma presença ameaçadora. Os navios parecem frágeis diante de paisagens gigantescas, enquanto praias, cavernas e tempestades reforçam o isolamento. Nolan evita uma estética excessivamente polida e aposta em cenários e criaturas físicas que dão peso ao mundo retratado.

Tom Holland caracterizado como Telêmaco no filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan
Tom Holland interpreta Telêmaco, filho de Odisseu e Penélope, em A Odisseia (foto: Reprodução/Universal Pictures)

A sequência do Cavalo de Troia resume essa abordagem. Em vez de tratá-la apenas como um momento triunfal, o filme explora a espera dentro da estrutura, o desconforto dos soldados e a violência após a abertura dos portões. É uma passagem grandiosa e sufocante, que estabelece o custo humano da estratégia de Odisseu.

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Matt Damon encontra um herói cansado de vencer

Matt Damon sustenta o filme ao interpretar Odisseu como um homem dividido entre orgulho e remorso. Seu corpo ainda pertence ao guerreiro, mas seu olhar revela alguém incapaz de enxergar a vitória da mesma forma. A atuação encontra força quando expõe a arrogância que coloca os companheiros em perigo.

Matt Damon caracterizado como Odisseu no filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan
Matt Damon interpreta Odisseu em A Odisseia, novo épico dirigido por Christopher Nolan (foto: Reprodução/Universal Pictures)

Anne Hathaway apresenta uma Penélope menos passiva, marcada pela necessidade de governar sem reconhecimento. Robert Pattinson transforma Antínoo em uma presença imprevisível, enquanto Samantha Morton cria, como Circe, uma das passagens mais inquietantes. Tom Holland funciona melhor quando Telêmaco questiona o tamanho da lenda que herdou.

O realismo também limita a adaptação

Ao reduzir a presença dos deuses, Nolan torna a história mais humana, mas diminui parte da estranheza que define Homero. O mundo deixa de ser controlado por forças divinas imprevisíveis e passa a obedecer principalmente às escolhas dos homens. Dramaticamente, a decisão funciona; mitologicamente, torna a jornada racional demais.

Anne Hathaway caracterizada como Penélope no filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan
Anne Hathaway interpreta Penélope em A Odisseia, novo filme de Christopher Nolan (foto: Reprodução/Universal Pictures)

O mesmo acontece com Odisseu. Sua crueldade, sexualidade e talento para a mentira são suavizados em favor de um herói traumatizado e consciente dos próprios erros. O filme ganha unidade emocional, mas perde ambiguidade. Algumas etapas da viagem também parecem episódios isolados, e o início carregado de explicações demora a encontrar seu ritmo.

Um épico imperfeito e difícil de esquecer

A Odisseia não reproduz toda a brutalidade, o humor e a dimensão religiosa do poema, mas encontra uma leitura própria para o mito. Nolan transforma a volta para casa em uma história sobre homens incapazes de abandonar a guerra. O resultado é menos estranho do que Homero, porém mais íntimo do que sua escala sugere.

Não é o filme mais equilibrado do diretor, mas está entre suas maiores realizações visuais. Mesmo quando simplifica personagens ou organiza demais o caos do mito, A Odisseia produz imagens e ideias que permanecem depois da sessão. É um épico grandioso, irregular e emocionalmente poderoso.

A Odisseia

A Odisseia

2026

Onde assistir: Cinemas

NOTA: