Lançado pela Netflix, Uma Carta à Minha Juventude é um drama de formação que evita soluções fáceis e grandes viradas narrativas para construir sua força a partir de observação, silêncio e ambiguidade emocional. Ambientado em um orfanato, o filme acompanha o encontro entre Kefas, um adolescente marcado por perdas profundas, e Simon, um cuidador solitário que também carrega um passado de frustrações e isolamento.

Ao longo da narrativa, a história se desenvolve de forma contida, priorizando gestos, convivência e pequenas mudanças internas. Essa escolha estética e narrativa se reflete diretamente no desfecho, que não entrega respostas objetivas, mas convida o público a interpretar o impacto emocional deixado pela trajetória dos personagens.

Atenção: o texto a seguir contém spoilers do final de Uma Carta à Minha Juventude.

Um final guiado por intenção, não por certezas

O último ato do filme se afasta de qualquer tentativa de fechamento tradicional. O destino de Simon permanece deliberadamente indefinido, abrindo espaço para leituras distintas. Em uma delas, o personagem encontra um novo motivo para seguir vivendo ao perceber o impacto que teve na vida das crianças do orfanato. Em outra, o filme sugere uma passagem de tempo que indica sua morte posterior, tratada de forma natural e sem dramatização excessiva.

Kefas e Simon sentados lado a lado em cena contemplativa do filme Uma Carta à Minha Juventude, da Netflix
Kefas e Simon compartilham silêncio e reflexão em Uma Carta à Minha Juventude (foto: Reprodução/Netflix)

O ponto central, no entanto, não está em escolher uma versão definitiva. A ambiguidade funciona como extensão direta da proposta do longa: o que importa não é o desfecho objetivo, mas o significado que uma presença deixa quando ela já não ocupa mais aquele espaço.

Simon e o valor de permanecer através dos outros

Independentemente da leitura adotada, o arco de Simon se completa no momento em que ele deixa de ser apenas uma figura funcional e passa a ocupar um lugar afetivo real. Ao criar vínculos com Kefas e os demais jovens, o personagem reencontra algo que parecia perdido: relevância.

O roteiro evita discursos de redenção ou grandes revelações. A transformação de Simon acontece de forma silenciosa, construída na rotina e na convivência. O filme sugere que seu verdadeiro legado não está em ser salvo, mas em ter sido significativo, ainda que por um período limitado.

Kefas e a recusa de um amadurecimento idealizado

A mesma abordagem contida se aplica à jornada de Kefas. O jovem não encerra o filme curado de seus traumas nem reconciliado plenamente com o passado. O que muda é a forma como ele passa a se relacionar com a própria dor.

Kefas interage com outras crianças do orfanato em cena de Uma Carta à Minha Juventude, filme da Netflix
Laços construídos no cotidiano marcam Uma Carta à Minha Juventude (foto: Reprodução/Netflix)

Ao longo da história, Kefas aprende a aceitar apoio e a reconhecer vínculos como algo possível. Não há promessa de superação total, apenas a sugestão de um caminho mais honesto e menos solitário. O filme, assim, propõe uma visão madura sobre crescimento: seguir em frente não significa apagar o passado, mas aprender a conviver com ele.

O título como ideia central da narrativa

No desfecho, Uma Carta à Minha Juventude se revela menos como um conceito literal e mais como uma reflexão simbólica. A “carta” representa o diálogo interno que cada personagem estabelece com quem foi um dia, revisitando escolhas, dores e ausências com um olhar menos severo.

O filme sugere que amadurecer passa por reconhecer a própria vulnerabilidade e olhar para a juventude com empatia, não com julgamento. O final funciona como essa carta simbólica, escrita não em palavras, mas em relações que redefinem a forma como os personagens se enxergam.

Quando a história não se encerra, mas permanece

Ao optar por um final aberto e interpretativo, Uma Carta à Minha Juventude reforça sua identidade como um drama interessado em processos internos, não em respostas definitivas. É um desfecho que pode parecer discreto à primeira vista, mas que dialoga de forma coerente com tudo o que o filme construiu até ali.

Mais do que resolver destinos, a narrativa termina propondo uma reflexão sobre memória, presença e continuidade emocional. Um final que não busca explicar tudo, mas que confia no impacto silencioso das relações e naquilo que permanece com o público depois do último plano.

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Estudante de jornalismo apaixonado por séries, sempre em busca da próxima maratona. Atualmente, estagiário no Séries em Cena, onde exploro o universo das produções e compartilho meu olhar crítico sobre o que está em alta no mundo das telinhas. E-mail: lucas.emanuel@seriesemcena.com.br