Lançado pela Netflix na última sexta-feira (22), O Falsário é um thriller italiano ambientado na Roma dos anos 1970 que mistura crime, política e drama psicológico. Inspirado livremente em personagens reais da história italiana, o filme acompanha Toni, um artista talentoso que passa a usar seu dom para a falsificação em um contexto cada vez mais perigoso, envolvendo grupos criminosos, disputas ideológicas e interesses do Estado.

Com uma narrativa densa e atmosfera sombria, a produção constrói sua tensão menos pela ação e mais pelas escolhas morais de seus personagens. O desfecho, em especial, transformou o longa em assunto recorrente entre o público, justamente por não oferecer uma conclusão confortável ou redentora.

 Cuidado: spoilers sobre o filme a partir deste ponto

O que realmente acontece no final de O Falsário

A cena que estrutura toda a narrativa do filme é revisitada no final: um homem caminha sob a chuva, entra em um carro e é assassinado. Ao longo da história, o público é levado a acreditar que aquela é a morte de Toni. No entanto, o desfecho revela que o homem morto não é o protagonista, mas sim Vittorio, seu amigo mais próximo.

Imagem do filme O Falsário, da Netflix
Cena do filme O Falsário, lançado pela Netflix (foto: Reprodução/Netflix)

Toni forja a própria morte usando o mesmo talento que o consagrou no submundo da falsificação. Ele manipula circunstâncias, aparências e expectativas para convencer todos ao seu redor de que está morto, enquanto, na realidade, foge de Roma com Donata e o dinheiro que conseguiu acumular. A morte funciona como sua obra final, uma falsificação perfeita, aceita sem questionamento por criminosos, autoridades e antigos aliados.

A escolha de Toni: fuga não é redenção

Embora o plano seja bem-sucedido do ponto de vista prático, o filme deixa claro que não se trata de uma vitória moral. Toni sobrevive, mas o faz ao custo da vida de outra pessoa e da destruição definitiva de qualquer vínculo ético que ainda o conectava ao mundo que deixou para trás.

Imagem do filme O Falsário, da Netflix
Cena do filme O Falsário, lançado pela Netflix (foto: Reprodução/Netflix)

O uso de Vittorio como peça-chave do plano é especialmente simbólico. Apresentado ao longo do filme como alguém dividido entre fé, ambição e frustração pessoal, Vittorio representa uma integridade frágil, que acaba cedendo às pressões do poder. Sua morte não é apenas um erro de cálculo, mas o resultado direto de um ambiente em que todos são manipuláveis e descartáveis.

O significado do final: identidade como falsificação

Mais do que explicar quem vive ou quem morre, o final de O Falsário propõe uma leitura mais profunda sobre identidade. Toni começa o filme como um artista invisível, alguém que deseja reconhecimento. Ao longo da narrativa, ele troca a criação pela cópia, a autoria pela falsificação, até chegar ao ponto em que falsifica a si mesmo.

Ao desaparecer, Toni conquista a sobrevivência, mas perde qualquer possibilidade de autenticidade. Ele não é mais um artista, nem um criminoso famoso, nem um homem comum. Torna-se um fantasma, alguém condenado a viver sem passado, sem nome e sem obra. O filme sugere que essa é a punição silenciosa do protagonista: viver, mas sem existir plenamente.

Um final amargo e coerente com a proposta do filme

O desfecho de O Falsário não oferece alívio nem catarse. Em vez disso, reforça a ideia de que, em um mundo moldado por mentiras institucionais, jogos de poder e interesses ocultos, sobrevive quem melhor sabe se apagar. A maior ironia da história é que o talento que salva Toni é o mesmo que o impede de ter qualquer identidade real.

Ao final, o filme não pergunta se Toni fez a escolha certa, mas se ainda havia outra escolha possível para alguém que passou a vida inteira copiando tudo ao seu redor, inclusive a própria existência.

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Estudante de jornalismo apaixonado por séries, sempre em busca da próxima maratona. Atualmente, estagiário no Séries em Cena, onde exploro o universo das produções e compartilho meu olhar crítico sobre o que está em alta no mundo das telinhas. E-mail: lucas.emanuel@seriesemcena.com.br